terça-feira, 15 de novembro de 2011

Nas ruas

...

Descia pela rua, mineiros enlameados, com os olhos cobertos por terra, fardas feitas de restos de ferro e pedaços tão pequenos de ouro que estes se faziam imperceptíveis. Eram toupeiras, tatus, formigas... 

Caminhavam com as picaretas nas mãos, guiados pelo sol que se misturava a terra e suor e os tornavam cegos, desciam esfomeados e abriam alas como quem faz túneis.

Do outro lado, religiosos, iam de branco, voando feito andorinhas em pleno verão, sol quente no rosto, fé no peito, suor, água, lágrimas e iam guiados, cegos, pelas ladeiras da cidade. Cantavam o refrão, vibravam, rufavam os tambores e dançavam a coreografia pelo centro da cidade.

E assim caminhava toda a cidade, cada bloco, cada cordão, cada um, cada dois, cada nós, todos iam cegos, sobre a penúria de um eclipse que se prenunciava. Tantos sonhos, desejos e se juntariam logo adiante.

O clima escurecia e silenciava, faltava pouco para que os blocos se colidissem.

A figura central vestida de terno e gravata era ameaçada por picaretas, rezas , palavrões, sonhos, guitarras, atabaques, tambores... Esta figura então bradava: É Carnaval!!!

O eclipse se completou, a cidade ficou em festa, os mineiros ostentavam todo o ouro que tinham, os religiosos bebiam e dançavam, e eram , agora, parte de algo bem maior.

E se consumiam, se juntavam, separavam, corriam, paravam, sentavam. Era a comunhão, era o único ser...

A cidade amanhecera envenenada de prazer, embriagada e falida. E cada mineiro, cada religioso, cada pessoa, era, agora, muito mais só do que antes, mais cego do que antes...
O homem de gravata olhava da janela mais alta... Gargalhava de prazer, todos aos seus pés, todas a sua cama, pena que o sonho logo iria acabar.

Quarta de cinzas e fim de reinado...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Saudade

...




Não, nem adiantar tentar mensurar saudade :
em milhas náuticas entre dois continentes,
em quilômetros que separam cidades,
em polegadas que separam corpos.

Saudade se descobre
no chegar e tocar
querer ficar e
partir

Saudade ,
Apenas se sente :
em cada desancorar,
ao entrar no ônibus e partir,
em fechar a porta e olhar para trás

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Trem Bala



Trem Bala

  Eu ando afim de coisas transientes, de coisas esquecíveis, da não reprodutibilidade, da não repetição, afim de singularidades e momentos impares.

  Quero descer na próxima estação e conhecer a cidade, sem sair da rodoviária, partir e pegar o próximo trem.  Na mão apenas a passagem, dando de encontro com quem resolveu ficar parado na estação.
Sonho com o cheiro do brinquedo novo, com o sabor do “start play”, noites insones a pensar, momentos de epifanias, EUREKAS.

  Mas não vislumbro horizonte algum, nem tão pouco solução. Tudo é velocidade, conectabilidade, transversalidade, tudo é tão passageiro, tão fútil...

  Desculpa senhor, eu sou assim.